"Vais-me dizer que 10 ou 12 euros pelo bilhete do concerto é um absurdo quando tu sacaste o disco da net?"

Foto retirada do Facebook da banda
                No passado dia 21 de março fomos ao Teatro Aveirense ver a estreia dos Linda Martini nessa sala (a reportagem do concerto pode ser encontrada aqui) e, no final, fizemos uma dúzia de perguntas ao André Henriques, vocalista e guitarrista da banda. Seguem em baixo as perguntas e respetivas respostas.


- Como é finalmente verem editados todos os vossos trabalhos em vinil?
É ótimo. Tínhamos um desejo quase egoísta de ter os discos nesse formato porque crescemos com os vinis dos nossos pais. Faz parte do nosso imaginário ouvir música assim: Lado A e Lado B, sem shuffle

- Pegar em canções que não tocavam há alguns anos foi um processo nostálgico? Tiveram de as reaprender?
Tivemos de reaprender muitas músicas que por preguiça ou por outra razão não tocamos ao vivo. O Marsupial foi o disco mais difícil de reaprender porque tem teclados, melódicas, trompetes, beats e outras coisas que não quisemos levar connosco para a estrada na altura. Há inclusivamente uma ou duas músicas que foram feitas em estúdio e nunca chegámos a tocar todos ao vivo, em take direto. Na preparação destes concertos não nos preocupámos demasiadamente em ser fiéis aos originais, quisemos apenas fazer versões com as quais nos sentíssemos confortáveis hoje.

- O que é que vos marcou mais em 12 anos de carreira?
Tantas coisas. A primeira vez que ouvimos a nossa música na rádio, a primeira review a um concerto nosso, os concertos na Irlanda e em Inglaterra em 2006, os primeiros festivais grandes, o concerto com o Kalaf dos Buraka na Gulbenkian, os concertos com a Gisela João e com os Deolinda, a versão do Zeca que fizemos com a Xana dos Rádio Macau… Sei lá.

- Nunca pensaram em fazer uma mudança drástica de sonoridade de um disco para o outro? Quem ouve a vossa música consegue reparar em diferenças notórias de disco para disco, mas nunca pensaram em fazer algo ainda mais diferente?
Quando partimos para um disco nunca temos ideia de como irá soar. Se já nos quisemos reinventar? Sim, em todos os discos, mas não com a preocupação de inovar para os outros, é mais no sentido de tentarmos manter o processo novo e fresco para nós. Temos sempre como desejo fazer coisas diferentes, mas no final do dia são as mesmas 4 pessoas a compor e é natural que soe de alguma forma semelhante. Acho que o truque é fazermos para nós. Se fazes um disco diferente dizem que antigamente é que era, se fazes um disco igual dizem que te estás a repetir, o melhor é não tentar acertar nos gostos dos outros e seguir o teu instinto.

- Já estão a pensar no sucessor de “Turbo Lento” ou preferem esperar mais tempo? Gostariam de o lançar quando?
Sim, estamos a pensar nisso desde que saiu o Turbo Lento. Já temos algumas coisas, ideias soltas a precisar de trabalho. Vamos ver se este ano temos tempo e cabeça para as fechar.

- Tentam escrever letras curtas (grande parte delas) de modo a dar espaço às melodias, ou é um como calha?
Não, utilizamos a voz como os outros instrumentos. Se acharmos que a música pede voz escrevemos mais coisas, se a música viver bem sem isso não se mete. O que queremos é complementar o instrumental e não fazer canções orelhudas de verso-refrão.

- Os Linda Martini antes de serem uma banda são um grupo de amigos, certo? Isso influencia a vossa criação, as vossas decisões, etc.?
Acho que sim. Não sei como é o contrário porque sempre fiz música com amigos mas se influencia a tua forma de estar influencia seguramente a criação. Entre amigos estás à vontade para dizeres o que gostas e o que não gostas sem ninguém se ofender. É mais fácil encontrar consensos assim.

- Gostam mais de tocar em grandes palcos (como um festival ou uma queima) ou em concertos mais pequenos e intimistas (como foi este em Aveiro)?
Em espaços fechados consegues criar uma intimidade diferente com o público. A nossa música não é propriamente “festiva”, será mais contemplativa e acho que esses espaços nos assentam melhor.

- Na vossa estreia no Teatro Aveirense foi notória a presença de bastantes pessoas mais velhas, como se os jovens se fizessem acompanhar pelos pais, que também lá estavam a abanar a cabeça. Podemos dizer que sentem que os Linda Martini são adequados dos 8 aos 80?
Não tenho muito essa ideia. Tenho reparado que com este último disco renovámos algum público e temos muita gente nova nos concertos mas também encontramos pessoas que nos acompanham desde os primeiros discos. Não sei se já são os pais a mostrar aos filhos ou ao contrário…

          - O que acham dos serviços de streaming de música como o Spotify, o Soundcloud, etc.? Acham que isso é o futuro da música?
Não faço ideia para onde caminha a indústria. Na era da informação é impossível contornar o download e a partilha de ficheiros, nós próprios o fazemos. Nada de errado nisso, a questão é: como é que neste novo paradigma mantemos a sustentabilidade para os músicos? Se a música caminha para o download gratuito vamos ter de encontrar outras formas de a remunerar.
Os músicos compram os seus instrumentos, alugam uma sala de ensaios, um estúdio para gravar um disco e uma fábrica para o produzir. Depois alugam uma carrinha, contratam técnicos de som e luz e conduzem quilómetros para chegar à tua cidade. Vais-me dizer que 10 ou 12 euros pelo bilhete do concerto é um absurdo quando tu sacaste o disco da net? 

 - O que é que vos inspira quando escrevem/compõem? Aquilo que ouvem quando estão em estúdio influencia o vosso processo criativo?
Tudo te pode inspirar, a música é apenas uma das fontes, como pode ser um jantar, uma ida ao cinema ou um livro. Normalmente não ouvimos coisas muito próximas do que estamos a fazer.

- E o que é que têm ouvido ultimamente?
Sei lá, os clássicos do costume e outras coisas que vamos descobrindo e mostrando uns aos outros. Ultimamente tem sido hip hop, sobretudo em português, rock do Mali, cenas azeiteiras dos anos 80 e 90 e punk rock chunga.


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2 comentários:

  1. Gostei imenso da pequena entrevista, muitos parabéns! Eu tenho um pouco aquela ideia de que a compra dos supostos discos de uma banda ou a ida a um concerto da mesma pode ser um resultado de a ter conhecido através de um download gratuito ou através das plataformas musicais como o spotify, etc.. A partir daí a decisão passa a ser do ouvinte, se este quer opoiar o artista ou não, digo-o curiosamente como recente dono dos dois primeiros registos disográficos dos Linda Martini, tudo isto porque um dia decidi descarregar um torrent destes dois álbuns e de os ter ouvido online.

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    1. Muito obrigado! Adquirir música de forma ilegal faz parte da nossa geração, não se pode negar isso. Mas acho que estes serviços que remuneram os artistas, ainda que não seja muito bem, são melhor do que downloads ilegais. Já vi Linda Martini ao vivo 3 vezes, apenas uma delas foi de graça, nas outras paguei bilhete e tenho 3 álbuns deles, 2 das recentes reedições e tenho a certeza que os irei ver ao vivo mais umas quantas vezes. É preciso apoiar os músicos.

      Rui, letra-r

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